Se fosse para você escolher, céu ou nirvana? Sejamos honestos, evitamos falar da nossa única certeza na vida: o fim. Você foi exemplar e agora pode escolher. Qual seria sua escolha?
Férias são um paraíso. Estava de férias na última semana e aqueles primeiros dias são tão bons. Viagem, paisagens, tudo novo, inclusive uma versão sua que você não via faz tempo. Desbloqueei até uma necessidade que eu não sabia que tinha, ter uma banheira no meio do quarto. Com certeza o paraíso tem banheira no quarto.
Isso me fez pensar em um texto que li sobre céu e nirvana. O céu que a gente imagina tem uma tendência a ser um paraíso pessoal, não é mesmo? Mas estamos preparados para essa felicidade egocêntrica?
Vamos voltar às férias. No começo, aquele café do hotel parece a melhor coisa do mundo, um mar que na fila do azul passou umas três vezes, aquela alegria, meu Deus, que lugar mais incrível.
Na segunda semana, o café não é mais o mesmo, você já se acostumou com o azul, a felicidade foi normalizada em um nível que parece que não era tudo aquilo. Quando chega a terceira semana, você já cansou do paraíso.
Como seria esse céu? O “meu” céu seria um lugar onde reencontraria as pessoas queridas, onde não teria problemas, onde desejos seriam atendidos e tudo aquilo que faltou na vida finalmente se realizaria. Sem pendência, sem perda, sem frustração, em uma felicidade sem fim. Tudo isso com alguns upgrades como telepatia, teletransporte, voo acrobático em nuvens brancas, todos usando roupas brancas. No meu céu não temos asinhas, pois acho estranha essa ideia metamorfa de pássaro com humano.
O seu céu como é? É igual à novela A Viagem? É um gramado verde com pessoas vagando? É uma rave? É silencioso? Tem música? Entre o meu céu e o seu céu, qual prevalece?
Para uns, céu vai ser silêncio; para outros, música. Para uns, prazeres sem fim; para outros, recolhimento, família ou aventura. No fundo, o céu imaginado é o nosso mundo atual mais confortável e com tudo funcionando.
O Dzongsar Jamyang Khyentse, em O que não faz de você budista, manda essa pedrada sobre o tema:
Enquanto isso, criancinhas sem órgãos genitais voam de um lado para o outro, cuidando de passar nossa roupa. As moradias atendem a todas as nossas necessidades e desejos, muito bem localizadas em uma comunidade de moradores do nirvana, todos cumpridores da lei. Nunca precisamos trancar portas nem janelas, e é provável que a polícia seja desnecessária. Se existirem políticos, serão todos confiáveis e honestos. Tudo será exatamente como quisermos, como numa casa de repouso muito agradável.
Ou talvez alguns imaginem a mais pura e clara das luzes, espaços vastos, arco-íris e nuvens onde poderemos repousar em estado de beatitude, exercitando poderes de clarividência e onisciência. Não haverá o medo da morte, pois já estaremos mortos e não teremos nada a perder. A única preocupação que poderíamos ter seria com alguns de nossos amigos e parentes queridos deixados para trás.
Essas versões do pós-morte parecem fantasiosas. Se examinada de perto, a visão típica do céu não é tão atraente assim, tampouco a iluminação. Aposentadorias, luas de mel e piqueniques são ótimos — se não forem infinitos. Se as férias de nossos sonhos forem longas demais, começaremos a sentir saudades de casa. Se a vida perfeita não tiver nenhum traço de sofrimento ou risco, poderá ser enfadonha.
Popularmente pensamos no paraíso como uma recompensa por ter levado uma vida correta, pago as contas, feito o bem e evitado o mal. Se fomos bons, vamos para o céu; se fomos ruins, para o inferno. Depois de tanto cumprirmos as obrigações da vida, merecemos férias sem fim: o céu.
A natureza humana não está preparada para isso. Tente viver uma semana só comendo o seu doce favorito. O que dava prazer deixa de dar. Na filosofia budista essa é a justificativa para o famoso caminho do meio.
Buda foi ao extremo quando percebeu o sofrimento do mundo. Não comia. A lenda diz que ele ficou seis anos quase sem comer, até que um dia viu um senhor tocando um instrumento de corda. Se a corda está frouxa, não tem som; se está esticada demais, arrebenta. O caminho do meio leva ao som.
Tomar sol na praia pela manhã é regozijante, mas o mesmo sol em excesso leva à insolação, à queimadura, à dor. Na filosofia budista tudo tem potencial de sofrimento. É um pouco negativista, eu sei, mas faz sentido.
Se partimos da premissa de que seremos as mesmas pessoas depois da vida, por que um céu eterno não acabaria cansando também? O prazer que conhecemos depende de limitação. O suspense só existe se não sabemos o final, ganhar a aposta só alegra se houver o risco da perda, o sextou é bom porque houve uma semana inteira de trabalho.
Muitos de nossos pequenos prazeres são problemas mal disfarçados. Assistir ao jogo com uma cerveja pode ser ótimo, mas gasta tempo, impacta a saúde e, dependendo, gera aflição e mau humor. Já dizia o Roberto Carlos: “Tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda”.
A vida é feita dessa mistura. Prazer e incômodo andam juntos, pois o prazer é uma dosagem do incômodo.
O nirvana parece ainda pior, pois ele é a libertação da roda da vida, o samsara, onde você se livra das regras da existência e permanece na ausência de prazer e sofrimento, um estado neutro e sem cor: o céu seria alegria eterna; a iluminação, tédio absoluto.
Em termos canônicos, a palavra páli nibbana é formada por ni e vana. Ni é uma partícula negativa; vana significa desejo ou apego. É chamado nibbana porque é o afastamento daquilo que se chama vana, o apego. Literalmente, nibbana significa não-apego.
Também pode ser definido como a extinção do desejo, do ódio e da ignorância. No Sermão do Fogo, o Buda diz: “O mundo inteiro está em chamas. Por qual fogo está aceso? Pelo fogo do desejo, do ódio e da ignorância; pelo fogo do nascimento, da velhice, da morte, da dor, da lamentação, da tristeza, do sofrimento e do desespero.”
Eu trato o budismo como técnica e filosofia para uma vida correta, mas vou fazer um parêntese aqui para entrar no campo da religião budista por um momento. O budismo também crê em céu/paraíso além do nirvana: se um ser acumula méritos e karma positivo, pode, ao morrer, renascer no céu, aquele local de eterna felicidade. Renasce como um deva, inclusive, sem defeitos. O infortúnio é que nesse mundo todos têm tudo e não há como continuar fazendo méritos positivos. E, sem méritos positivos, seu próximo renascimento é o tombo.
Estamos todos ferrados.
Mas só estamos justamente porque levamos para esses conceitos a nossa projeção. Levamos para o além os mesmos desejos, as mesmas preferências e a mesma necessidade de que a realidade se adapte a nós. Somos pequenos tentando alcançar conceitos maiores que nossa compreensão.
Eu não tenho a resposta para a pergunta do título, mas o pensamento correto é a faísca para o caminho da iluminação. E você, já sabe qual escolheria? Eu não.
Sigamos pelo caminho do meio, sem deixar a corda frouxa e nem deixá-la arrebentar.
Desperte!
Ferramentas milenares
para uma mente inquieta
Uma série de 5 livros e um bônus em que cada figura da filosofia budista tibetana é decodificada como uma tecnologia mental concreta. Inclui também 2 obras independentes para você aplicar na sua vida diária.



Bela reflexão! ✨
Tudo que está acima é como o que está abaixo.