Você também se lembra? Antes de escrever a sílaba, você passava o lápis por cima do pontilhado e repetia na cartilha até conseguir fazê-la sozinho.
Aquela criança bochechuda da capa e aquela letra gorda e sorridente. Ela trazia cada letra pontilhada e a tarefa era passar o lápis nº 2 por cima para cobrir os pontos. Hoje parece fácil demais, mas o traço saía torto, tremido, furava a linha, a ponta do lápis quebrava e tinha que ir até o lixo do canto com o apontador para apontá-lo. O “a” nascia barrigudo e corcunda. O “e” ficava com jeito de “c” adaptado.
Então você fazia de novo. E de novo. E de novo. Uma página inteira do mesmo pontilhado, a mão doendo, o calo no dedo começando a se formar, até que a letra saía firme e a professora carimbava uma estrelinha. Parabéns, você treinou até acertar.
Inclusive, como está sua letra manuscrita hoje?
A filosofia budista fala em um Caminho, talvez não tão suave, pois tem oito direções, escreve os oito em uma linguagem meio de manual e nomeia cada um de “correto”.
A tradição agrupa os dois primeiros como Sabedoria, a pañña:
Lição 01. Entendimento correto (samma ditthi): ver a vida como ela é, sem fantasia por cima. É por onde a coisa começa.
Lição 02. Pensamento correto (samma sankappa): o pensamento claro, sem as distorções da ganância, do ódio ou da ilusão. Somos sinceros e não abrigamos motivos egoístas.
Desses vem o compromisso moral, a sila:
Lição 03. Fala correta: evitar o engano, fofocas, calúnias e outras formas de abuso verbal e de desonestidade. Em vez disso, falamos apenas para favorecer os outros e revelar a verdade.
Lição 04. Ação correta: conduzir-se de um modo ético e que favorece os outros. Abstemo-nos de matar, roubar, de conduta sexual imprópria e de atividades danosas aos outros e a nós mesmos.
Lição 05. Meio de vida correto: ganhar a vida sem prejudicar ou explorar os outros. Nosso trabalho deve estar de acordo com o restante do caminho óctuplo.
E os três últimos são o treino da mente:
Lição 06. Esforço correto: todo o esforço para desenvolvermos bons hábitos ao mesmo tempo em que refreamos nossos maus hábitos.
Lição 07. Atenção correta: manter uma mente equilibrada e calma na vida diária para percebermos mais profundamente a verdadeira natureza de nossas vidas.
Lição 08. Concentração correta: todos os esforços para desenvolver a prática a fim de obter tranquilidade, compreensão da natureza real da vida e libertação de concepções errôneas.
Para casa. A Caminho Suave tinha o alfabeto inteiro para decorar, a lição da Zazá parecia tão longe na época. Essa outra cartilha, a da vida, tem oito e só, mas as lições não têm fim. Oito pontilhados que precisamos treinar dia a dia.
Parece pouco. Aí você começa a traçar e descobre que a vida inteira não chega pra fechar o traço de nenhuma delas direito. Tem tarefa em que eu estouro a linha até hoje, quarenta e tantos anos e o dedo ainda treme.
E a estrelinha, aquela dourada com cola Tenaz? Quem dá agora é a vida, e ela atrasa horrores. Vem numa terça qualquer, quando você já nem lembrava que estava treinando. Às vezes é só uma noite em que você dorme sem remoer nada. Uma noite. E de manhã você entende que aquilo ali era a estrela.
Engraçado que a cartilha se chamava Caminho Suave. O Caminho Óctuplo também pode ser suave e tem oito lições dentro. Nenhuma delas sai de graça, de forma fácil.
Mas seguimos traçando.
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Que bonito relacionar Caminho Suave com lições para a experiência da vida que o budismo trás, porque a alfabetização nos trás a dignidade de amadurecermos e aprendermos, sei lá, cem vezes mais sobre a vida, já que podemos consultar lições aprendidas e ensinadas há milhares de anos, compreendermos a história da humanidade, as leis da natureza, botânica, biologia. Parabéns. Foi um artigo muito bonito.
Meus pontilhados. Meus caminhos.